Vivi meu primeiro luto neste fim de semana, aos 29 anos, quase 30. Internamente já estava me preparando há alguns anos para um luto familiar dos mais próximos. Meus avós, meus parentes mais velhos… Meu coração já estava conformado com esta dor, a dor de alguém da família que já estava entre os anciãos. Porém a vida, ela é expert em te pegar de surpresa e meu primeiro luto foi do meu tio, Vanderlei. Tinha 52 anos, atlético, quando mais jovem era surfista, saúde plena, uma filha de 11 anos e a esposa, minha tia “de sangue”, irmã da minha mãe.
Descobri que ele havia falecido no sábado ao meio dia, quando eu estava em Joinville, enquanto eu e meu esposo visitávamos a irmã dele, minha cunhada. No meio do almoço, minha mãe me dá a notícia por telefone. Meu cérebro disperso não atinou muito bem na hora, então eu voltei para a mesma e fiquei aérea. Me perguntaram o que havia acontecido, eu contei sem muita emoção e fiquei calada, distraída pensando naquela informação que acabara de receber.
Liguei para meu pai, falei com meu irmão, todos arrasados e tão confusos quanto eu. Minha mãe presenciou o ataque cardíaco que deu fim à vida dele, chorava muito e estava elétrica, movida pela adrenalina e por cuidar da minha tia que, é claro, estava em choque.
A previsão era de voltar para Floripa no domingo à tarde. Porém, trocamos a data e chegamos ao velório no sábado às 21 horas. Durante a viagem de Floripa para Joinville, eu me sentia adormecida, pisando em nuvens, muito aérea. Parecia que um air bag estava me protegendo. Até chegar em casa, tomar banho, colocar a típica roupa toda preta e pegar o Uber, eu parecia amortecida. Meu coração mudou a antena quando saí do carro.
A névoa se dissipou e eu vi meu padrinho chorando. Um homem de 2 metros chorando. Abracei ele e comecei a chorar de soluçar. Ele me disse: “perdi meu amigo”. Os dois, maridos das minhas tias “de sangue”, se conheciam há mais de 30 anos. Ali eu senti que seria muito mais sobre quem ficou do que sobre quem foi.
Somos um matriarcado forte, minha família, ao todo 12 mulheres. Todas enfileiradas e na frente minha tia, viúva aos 42 anos. Ela é miudinha, 1 metro e meio. Naquela noite ela parecia uma bonequinha de pano que dava para colocar na mão. Todas nós, eu, minha avó, minhas tias, minhas primas e minha mãe, uivamos por horas um choro gutural, feito um bando de lobas. Nos abraçamos todas e ali ficamos, velando o caixão com um rosto conhecido dentro, que eu demorei para conseguir encarar.
Passado o primeiro impacto, sentei ao lado do meu esposo. Eu, até então quase muda, desatei a falar. Desde pequena sempre fui muito falante, portanto a fala sempre é um sinalizador de como estou: se falo muito estou em meu estado normal, se falo pouco estou doente, triste, ou com raiva. Do lado de fora do velório sentamos num banco e comecei a relatar todas as experiências que tive com meu tio: ele quem dançou comigo na minha formatura. Era para ter sido um amigo meu, mas ele pegou virose e faltou. Meu tio, taurino, prontamente levantou e disse: “Deixa que eu vou”. Ele era assim, desenrolado, prático.
Na minha infância, era quem mais nos levava para a praia num carrinho minúsculo. Ele, minha tia na frente e 3 meninas atrás com cheiro de protetor solar e frutinhas que a gente levava para comer. Passávamos o dia todo no Morro das Pedras, correndo sem parar. Tentou me ensinar a nada (eu era uma péssima aluna), colocava eu e minhas primas em cima da prancha e nos empurrava no mar. Eles eram os tios legais sem filhos da minha infância, fazíamos noite do pijama na casa deles, ele comprava todo o tipo de doce para a gente comer, era uma alegria!
Depois que eu já estava adulta, minha prima Cecília nasceu. Um bebê lindo, saudável, pisciana de olhos grandes e expressivos. Durante minha vida adulta acabei me afastando um pouco, o que é natural, a vida começa a exigir e os dias de praia viraram uma lembrança nostálgica que me acolheu na noite em que nos despedimos.
A morte, apesar de dolorosa, tem uma atmosfera digna. Não é como a ansiedade e a dor por conta de trabalho, dinheiro, que é uma obrigação, você tem contas a pagar. A morte é um direito. Um direito já muito estruturado e estabelecido desde que somos gente. Me senti no direito de chorar e sentir o que era para ser sentido. Neste caso sempre fui boa, em sentir. Agora é com o tempo.